Vacinas e seus efeitos colaterais

bebes criancas

 

Vacinar ou não vacinar? Vacinas provocam reações graves? Sempre que um campanha de vacinação inicia começam também os boatos e teorias de conspiração anti-vacina.

A história

A mortalidade infantil na idade média era em torno de 40-45% e não era muito menor no século XVII e XVIII. As pessoas simplesmente tinham que aceitar que de cada 10 filhos quase metade iria morrer na infância, geralmente de alguma doença infecciosa.

As coisas só começaram a mudar a partir do século XVIII e XIX, quando as condições de saneamento e os recursos médicos começaram a se desenvolver.

Em 1970 um médico inglês, Edward Jenner, descobriu a vacina da varíola, que matava mais de 80% das pessoas com a doença na época. Ele observou que as mulheres que ordenhavam vacas contaminadas não pegavam varíola e resolveu então injetar o pus desas feridas em pequenos arranhões nos braços das pessoas. As pessoas tinham febre por alguns dias, mas saravam e permaneciam imunizadas.

Outras vacinas foram surgindo ao longo dos séculos e sobretudo no século XX, quando foi descoberta também a penicilina por Alexander Fleming (em 1928).

Impacto da vacinação na saúde das crianças

Hoje a mortalidade infantil é baixíssima em países de primeiro mundo, entre 0,3-0,7%. No Brasil varia de 1,5 a 3,3% de acordo com a região. De qualquer forma muito inferior a qualquer época da história.

Chegamos talvez a um outro extremo, que nos leva a repensar nos exageros. Exageros no uso de antibióticos são responsáveis pelo surgimento de infecções cada vez mais resistentes (sem falar nos efeitos adversos) e o uso de algumas vacinas poderia provocar efeitos colaterais desnecessários.

Para incluir uma vacina no calendário vacinal os órgãos governamentais comparam, por exemplo, a incidência dos casos graves da doença em questão com os casos graves de efeitos adversos da vacina. A vacina é incluída quando há benefício real para a população.

Alguns estudos mostram redução na mortalidade no interior do Brasil após campanhas de vacinação mesmo quando as condições de saneamento e acesso aos serviço de saúde se mantiveram inalterados.  Particularmente, um estudo de Pernambuco mostrou redução na mortalidade geral de 49,2‰ (por mil) nascidos vivos em 1990 para 20,7‰ em 2002 após uma campanha vacinal ampla.

Vários artigos mostram redução na mortalidade e internações por diarréia com a vacina do rotavírus, além da mortalidade por gripe, sarampo e tantos outros vírus graças à vacinação infantil.

Movimento anti-vacina

Recente movimento anti-vacina nos EUA provocou um “boom” de mais de  24 mil casos de coqueluche no país. Na Europa o movimento (forte em países como Alemanha, Inglaterra, França e Itália) causou aumento de casos de sarampo e outras doenças já então controladas.

Tudo começou em 1998, quando um médico inglês chamado Andrew Wakerfield publicou um artigo na famosa revista médica The Lancet que associava a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba, rubéola) a um risco aumentado de autismo. Posteriormente, a comissão de ética descobriu que ele havia fraudado os resultados e seu registro médico foi cassado. A revista pediu desculpas ao meio científico e estudos posteriores já confirmaram não haver aumento de risco de autismo com a vacina. Porém, a questão continuou sendo (irracionalmente) levantada por grupos anti-vacina.

Na época questionou-se se o mercúrio presente na vacina na forma de timerosal (um conservante que evita a proliferação bacteriana no frasco) era o responsável pelo autismo. É conhecida a neurotoxicidade do mercúrio em doses elevadas e a tendência mundial é reduzir seu uso nas lâmpadas fluorescentes, baterias, pilhas, cimento e cosméticos. O antigo mertiolate e mercúrio cromo foram abolidos pelo mesmo motivo. No entanto a dose na vacina tríplice era em quantidade muito inferior à dose tóxica e a associação ao autismo ou a um pior desenvolvimento cognitivo nunca foi comprovada em qualquer estudo científico. Fonte: CDC e PubMed.

O timerosal ainda é utilizado em alguns países (em frascos multidoses). No Brasil chegou a ser utilizada uma vacina contra gripe com timerosal  em algumas campanhas, no entanto nem a vacina tríplice viral nem a da gripe ou qualquer outra usada no Brasil atualmente contém timerosal. As bulas das vacina Trimovax (tríplice viral) e FluQuadri (gripe) podem confirmar o dado.

Tipos de vacinas

As vacinas podem ser de microorganismos vivos atenuados (enfraquecidos para provocar uma resposta do sistema imunológico sem provocar doença) ou de microorganismos totalmente inativados (inteiros ou apenas fragmentos de proteínas ou polissacarídeos). Vacinas de bactérias ou vírus vivos podem provocar sintomas brandos da doença, enquanto as inativas costumam provocar apenas sintomas locais, mialgia e, eventualmente, febre. Exemplos:

Vivos atenuados: BCG, tríplice viral (sarampo/caxumba/rubéola), varicela, febre amarela, rotavírus, polio oral.  São contra-indicadas em portadores de HIV, doença auto-imune, portadores de câncer em quimioterapia e gestantes.

Inativados: Polio injetável, gripe, hepatite, raiva, difteria, tétano, coqueluche (seja com células inteiras seja acelular, com menores efeitos colaterais), pneumococo, meningococo, Haemophilus.

Conclusão: vacina da febre amarela pode provocar uma “febre amarelinha”, de sarampo um “sarampinho”, mas de gripe não provoca “gripinha”. Pode provocar febre, dor no corpo, mas não os sintomas respiratórios da gripe.

Vacinas e ovo

Algumas vacinas são fabricadas em células de embrião de galinha e podem conter pequenas quantidades de ovalbumina. São elas: tríplice viral (sarampo/caxumba/rubéola), gripe e febre amarela.

Vários estudos atualmente demonstram segurança no uso dessas vacinas em crianças alérgicas. Não houve casos de reação com nenhuma dessas vacinas. Fonte: PubMed. OBS: há vários estudos demonstrando segurança no uso de vacina para febre amarela em alérgicos a ovo aqui no portal do PubMed. Apesar disso seu uso ainda não está liberado pela ANVISA. O CDC (órgão americano) permite quando há indicação médica e o paciente permanece 30min sob vigilância após a vacinação.

Algumas vacinas contém lactoalbumina na sua composição, como é ocaso da tríplice viral de alguns fabricantes. Também não há relato de reações alérgicas em crianças com alergia a proteína do leite de vaca. De qualquer modo, as vacinas utilizadas atualmente no Brasil não contém proteína do leite de vaca.

Efeitos Colaterais Graves

Anafilaxia é uma reação alérgica grave que pode acontecer com o uso de qualquer antibiótico, medicamento ou qualquer vacina, seja ela de vírus vivo ou inativado.

Efeitos graves de antibióticos podem, inclusive, ser mais frequentes que de algumas vacinas. O Clavulin®, por exemplo, pode provocar reações comuns como diarréia e candidíase na frequência de 1-10% e também reações mais raras e graves, como convulsão, insuficiência renal e hepatite (entre várias outras), na frequência de 1 para 10mil (0,01%).

Agora as vacinas:

Narcolepsia e H1N1: recentemente houve suspensão do uso da vacina Pandemrix na Finlândia e Suécia por suspeita de que ela tivesse provocado aumento dos casos de narcolepsia (distúrbio neurológico sem cura conhecida que faz a pessoa adormecer de repente, como se o cérebro “desligasse”). Ainda não há evidência científica suficiente para associar essa vacina à doença. A Pandemrix não é utilizada no Brasil e não há casos de narcolepsia no nosso país.

Gripe e encefalite e paralisia (Guillain Barré): em 10% das pessoas a vacina da gripe causa apenas efeitos brandos (fere, dor abdominal, dor muscular), mas na frequência 1 pra 100.000 (0,001%) ela pode causar efeitos mais graves, como encefalite e paralisia (Guillain Barré). Os estudos ainda são poucos porque os casos são raros e os resultados são conflitantes. Enquanto uns sugerem que a incidência desses efeitos não é superior ao da própria gripe (a doença também pode provocar encefalie e paralisia), em outros a incidência parece aumentar com a vacinação. A maioria dos estudos não mostra aumento dessas manifestações com a vacinação. Manifestações fatais e que deixam sequelas parecem ser mais frequentes naqueles que não tomaram a vacina. Fontes: PubMed.

Encefalite e meningite pela Tríplice viral (ou MMR – sarampo, caxumba, rubéola): em até 3% dos pacientes a vacina causa efeitos como febre baixa e manchas na pele, sem nenhuma ameaça à saúde.

Os efeitos mais graves, como encefalite são muito caros, na frequência <1:1.000.000 de doses (0,00001%), muito menor que o risco de encefalite pelo sarampo ou pela rubéola (0,015 a 0,1%). O componente caxumba pode resultar em parotidite em mais de 3% dos vacinados. Meningite asséptica, com começo de 15-35 dias após a vacinação, também é relatada com freqüência variada (0,005 a 0,015%). O componente rubéola pode resultar em artralgia passageira (25%) e artrite (10%) em adolescentes e mulheres adultas, no entanto são muito raras em crianças e em homens (0%-3%).

Paralisia pela Polio: nos últimos 1o anos foram confirmados 48 casos de pólio pós-vacinal no país. A probabilidade é de um caso a cada 5 milhões de doses aplicadas de Polio oral (VOP), sendo menor a partir da segunda dose. No entanto desde que a vacinação com a VOP se intensificou, em 1998, houve redução de 99% dos casos de doença e há quase 3 décadas não temos um caso de poliomielite selvagem (não vacinal). Atualmente, o calendário de vacinação foi adaptado trocando as primeiras doses de Polio oral por injetável (VIP), que não provoca paralisia. Depois da segunda dose, a criança, já protegida, fica liberada para tomar a VOP visando evitar o ressurgimento da doença.

OBS: as crianças que recebem a VOP excretam os vírus vacinais nas fezes por um período de até seis semanas, garantindo imunidade para aqueles que não tomaram a vacina. Conforme acordo com a OMS, a vacinação com a VOP deverá ser interrompida simultaneamente em todos os países, após a certificação da erradicação global.

Alergia a proteína do leite pela vacina do Rotavírus: não há evidências científicas do desenvolvimento de alergia ao leite de vaca após a administração da vacina rotavírus humano. A associação provavelmente é feita pelos pais porque uso da vacina coincide com o período de transição do aleitamento materno e o aleitamento com leite de vaca e é nessa faixa etária que os primeiros sinais de alergia começam a aparecer. Diarréia leve e mais raramente vômitos podem ocorrer pela vacina. Invaginação intestinal (quando o intestino de dobra e obstrui) pode ocorrer na frequência de 0,0053 a 0,0015%, muito inferior aos riscos de invaginação pela própria doença.

Doença vacinal grave e febre amarela: a doença vacinal com falência de órgão (insuficiência renal e/ou hepática, por exemplo) pode ocorrer em 0,0004% dos vacinados – muitíssimo inferior aos riscos da própria doença. Também é relatado acometimento do sistema nervoso central em 0,0008% dos vacinados. Pessoas com idade ≥60 anos têm risco aumentado desses eventos mais graves, principalmente se é a primeira vez que tomam a vacina. Os efeitos colaterais comuns são dor de cabeça, dor no corpo e febre baixa.

Por que vacinar ?

Porque a doença ainda não foi erradicada, é frequente e pode matar. 

Nenhuma doença é tão branda que não possa levar ao óbito. A mortalidade da gripe é próxima a 1%, o que dada sua alta incidência na população, torna o dado bastante substancial.

O rotavírus é a causa mais comum de diarréia grave em crianças <5 anos de idade em todo mundo. Vacina reduz 25-50% a mortalidade pela doença.

A mortalidade da febre amarela é entre 20-50% e a vacina protege mais de 90% depois da 1a dose.

Para proteger contra o risco de introdução de vírus por viajantes oriundos de localidades que ainda apresentam casos da doença.

Entre 2004 e 2005, 18 países já livres da pólio foram reinfectados por vírus selvagens importados da Nigéria e três países foram reinfectados pela importação de vírus da Índia. E esse é só um dos vários exemplos…

Para nos proteger em viagens.

É o caso da vacina para febre amarela para pessoas que vão viajar para áreas acometidas ou arredores. No caso do Brasil, poucos estados ficam livres. EUA e Europa, por exemplo, exigem que sua população seja vacinada para entrar no nosso país.

No final de 2005 foi confirmado o primeiro caso importado de paralisia por vírus da polio em uma mulher não vacinada que havia viajado ao exterior, onde teve contato com crianças recentemente vacinadas com a vacina oral. Ela adquiriu a infecção vacinal.

Para proteger os outros.

A vacinação de uma criança não protege apenas a vida dela, mas também a de todos ao seu redor. Um programa de imunização, em geral, pode ser considerado um sucesso quando pelo menos 95% da população é vacinada. Os 5% restantes são protegidos pelo que se chama, no jargão médico, de “imunidade de rebanho”, como uma muralha de proteção.

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