Repelentes e proteção contra mosquitos: o que precisamos saber

criancas

“Os insetos são como agulhas infectadas ameaçando populações, afetando a vida das pessoas em diversos aspectos: pessoais, sociais ou econômicos. Na falta de vacinas para muitas dessas doenças, o uso de repelentes é uma alternativa importante.” Walter Leal, brasileiro pesquisador da University of California.

Mais de um milhão de pessoas morrem anualmente de doenças transmitidas pelos mosquitos, como malária, dengue e febre amarela. Doenças transmitidas por mosquitos causam mais mortes do que as guerras e ainda podem afetar a qualidade de vida, como no caso das dores crônicas causadas pela chikungunya e nas sequelas neurológicas dos bebês acometidos pela zika durante a gestação.

Como funcionam os repelentes

Os mosquitos usam as antenas para sentir o cheiro e saber onde as coisas estão. Nós transpiramos e atraímos os mosquitos através das substâncias que eliminamos na pele. Os repelentes agem interferindo no funcionamento dos receptores das antenas dos mosquitos, de forma que eles fiquem sem saber para onde ir.

Uma das dificuldades no desenvolvimento dos repelentes está no fato de nosso corpo eliminar mais de 340 substâncias químicas diferentes e até hoje não se saber qual ou quais exatamente atraem os insetos. Isso sem falar que existem mais de 2500 espécies diferentes de mosquitos, que podem ser atraídos por odores diferentes.

Estudos atuais sobre eficácia dos repelentes

Atualmente se sabe que a eficácia dos repelente em afastar os mosquitos pode variar de acordo com a espécie do inseto avaliada e o tipo de repelente usado.

Um estudo africano de 2009 sugeriu que a potência e a duração o efeito da icaridina contra o Aedes aegypti seria superior ao DEET. Desde então os produtos vêm sendo indicados para uso na infância, já que a icaridina parece ser menos tóxica que o DEET e tem cosmética mais agradável ao uso.

Uma revisão de literatura interessante foi publicada em 2013 mostrando como o Aedes aegypti é particularmente mais difícil de repelir que as outras espécies de Aedes. Nesse levantamento, o DEET em concentrações acima de 20% se mostrou particularmente mais eficaz contra o Aedes aegypti que a icaridina e o IR3535.

Quanto às espécies Culex (pernilongo comum ou muriçoca) e Anopheles (transmissor da malária), a revisão de 2013 especialmente mostrou que todos os repelentes foram igualmente eficazes, variando apenas no tempo de proteção (4-10 horas).

Um último estudo, de 2017, comparou 11 tipos de repelentes contra o Aedes aegypt. A vela de citronella, por exemplo, se mostrou completamente ineficaz em afastar esses mosquitos: ela na verdade inclusive atraiu mais insetos para as pessoas que estavam próximas a ela. A vitamina B1, o óleo de citronela, os braceletes com mecanismo sônico e aqueles braceletes que eliminam odores (ex: da Johnson) se mostraram completamente ineficazes. Os repelentes a base de DEET e PMD (óleo de eucalipto-limão) foram aqueles que se mostraram mais eficazes, reduzindo em até 60% a atração dos mosquitos. Esse estudo não avaliou a icaridina.

OBS: há muitos outros estudos confirmando a ineficácia da citronella em em afastar qualquer tipo de mosquito.

Outros tipos de repelentes

Existem repelentes espirais, de tomada e de pastilhas que eliminam piretróides, substâncias repelentes de mosquito. Particularmente aqueles em espiral têm sido questionados quanto aos riscos de incêndio e malefícios à saúde, não sendo recomendados para uso frequente dentro dos quartos.

Quanto às pastilhas e os repelentes elétricos (difusores de tomada), estudos já mostraram resistência do Aedes aegpti aos piretróides usados nesses produtos. Desta forma, os repelentes de tomada não são adequados para proteger da dengue, zika, chicungunya e febre amarela.

O já citado estudo de 2017 confirmou, no entanto, a eficácia contra o Aedes aegypti dos repelentes que eliminam metofluthrin (OFF! clip-on, ainda não disponível para venda no Brasil). Eles reduziram até 80% o número de picadas. São repelentes para carregar próximo ao corpo que funcionam com bateria e refil. Assisti a alguns vídeos de usuários explicando que os produtos apenas funcionam se a pessoa ficar parada, não sendo eficazes em uma caminhada, por exemplo.

Roupas tratadas e impregnadas com permetrina, deltametrina ou icaridina já foram estudadas e podem ser usadas em qualquer idade sobretudo associadas ao uso dos repelentes, podendo aumentar a eficácia da proteção para até 100% segundo alguns estudos. Há também telas mosquiteiras para berço e carrinho impregnadas com permetrina.

Encontrei produtos interessantes na internet, como os abaixo. Há modelos para adultos e até para bebês, como a calça da foto abaixo.

Comprar em: Mercado Livre
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Tempo de proteção

A Proteste realizou testes em 2015 avaliando as marcas brasileiras quanto à proteção contra o Aedes aegypti. Quanto ao tempo de proteção, os resultados foram todos inferiores aos da embalagem, como mostrado abaixo:

O pior resultado no quesito “proteção” entre os produtos infantis foi o da Turma da Mônica, cuja compra é desaconselhada porque não traz no rótulo a concentração do ativo IR3535.

Alguns repelentes como Super Repelex e Xô Inseto foram eficazes somente contra o moquito comum (Culex, pernilongo, muriçoca) e não o Aedes aegypti.

O Exposis foi aquele que apresentou melhor desempenho, embora ainda muito inferior às 10 horas prometidas no rótulo.

Uma crítica: os testes foram feitos inserindo o antebraço de voluntários em gaiolas com mosquitos. O braço era retirado e recolocado de 30/30min na mesma gaiola. É possível que os mosquitos tenham saturado suas antenas de repelente e  isso tenha diminuído o tempo de proteção dos produtos. Na realidade o que acontece é que estamos em constante movimento e não ficamos em contato com os mesmo mosquitos por muitas horas.

Recomendações por idade no Brasil

Menores de 6 meses: não podem usar repelentes. Manter somente medidas mecânicas de proteção, como tela mosquiteira nas janelas, protetores de carrinho, berço, roupas protetoras e etc.

A partir de 6 meses: liberados os repelentes a base de IR3535 (ex: Johnson’s Baby), icaridina 20% (Exposis Kids). Os outros repelentes não foram estudados nessa faixa etária e por isso não estão liberados.

A partir de 2 anos: liberados repelentes a base de DEET (várias marcas disponíveis), óleo de eucalipto-limão (formulações repelentes prontas Corymbia citriodora) e icaridina 25% (Expolis Extreme).

OBS: o óleo essencial de eucalipto-limão não deve ser usado puro na pele e não confere proteção duradoura, não sendo equivalente aos extratos prontos. Não encontrei formulações prontas nas farmácias brasileiras mas elas são comuns em alguns países, em concentrações que variam de 25-40%.

Gestantes: liberados repelentes a base de icaridina, IR3535 e DEET pela ANVISA. O mesmo vale para o CDC, que liberou o uso dos repelentes nas gestantes baseados nos últimos estudos que avaliaram a segurança dessas substâncias.

Variações ao redor do mundo

As recomendações variam de país para outro, considerando principalmente a frequência das doenças transmitidas pelos mosquitos e os estudos já realizados na região. Como estamos em uma área onde as doenças transmitidas pelos mosquitos são extremamente frequentes e têm um enorme impacto em vários aspectos, há um tendência atual de flexibilizar algumas recomendações.

Por exemplo, a Academia Americana de Pediatria permite o uso de produtos com até 30% de DEET em maiores de dois anos; a Sociedade Canadense preconiza uso de produtos com até 10% de DEET em crianças de seis meses a 12 anos e autores franceses sugerem concentrações de até 30% para crianças entre 30 meses e 12 anos.

No Brasil, a maioria dos produtos destinados a crianças e adultos contém DEET <10%. A maior concentração de DEET é encontrada no Super Repelex adulto (11-14%).

Revisão australiana de 2016 considerou seguro o uso de icaridina de DEET em crianças a partir de 3 meses. Australianos liberam o óleo de eucalipto-limão a partir de 1 ano de idade, enquanto americanos apenas a partir de 3 anos de idade. Por ser considerado natural, o óleo acaba sendo preferido por muitas pessoas, no entanto ele tem um potencial de causar alergias superior às outras substâncias.

Como usar os repelentes e outros meios de proteção

  • Usar quantidade suficiente para cobrir a pele exposta: a ação de um repelente limita-se a uma área de quatro centímetros (aplicar na bochecha, não protege o nariz, por exemplo)
  • Evitar reaplicações frequentes (DEET deve ser usado no máximo 3 vezes ao dia)
  • Lavar o local em que foi aplicado repelente com água e sabão ao final da exposição a mosquitos, para evitar reações adversas
  • O repelente seve ser sempre o último produto a ser aplicado na pele: ao colocar protetor solar, esperar sua absorção completa (20min) e colocar o repelente por cima
  • Não colocar por baixo das roupas (é ineficaz), mas sim por cima
  • Evitar o contato com olhos, boca e narinas
  • Evitar usar spray próximo aos alimentos e do rosto: borrife nas mãos e use as mãos para aplicar na face
  • Não utilizar sobre pele lesionada ou irritada
  • Manter os repelentes fora do alcance de crianças
  • Caso suspeitar de reação adversa ou intoxicação, lavar a área exposta e, se necessário, procurar serviço médico levando consigo a embalagem do repelente
  • No caso de exposição prolongada, utilizar roupas tratadas com repelente

Recomendações especiais para proteção contra malária:

  • Aplicar repelente nas partes expostas do corpo entre o anoitecer e a hora de dormir
  • Dormir em leito com tela tratada com permetrina

Para proteção contra zika, dengue, chikungunya:

  • Aplicar o repelente nas partes expostas do corpo entre o amanhecer e o anoitecer
  • Proteger o ambiente usado durante o dia com telas
  • Usar vestimentas e meias que mantenham a maior área corporal coberta

E mais: combater criadouros do mosquito.

Alergias e efeitos adversos

Reações alérgicas podem acontecer (coceiras e placas vermelhas principalmente), mas são tratáveis e cessam à medida que a criança deixa de se expor ao produto.

Todas os marcas apresentam risco de reações adversas, sobretudo nas primeiras 24 horas.

Antes de iniciar o uso, é recomendado que se faça o teste em uma pequena parte do corpo.

Sobre o DEET: irritação cutânea e ocular podem raramente acontecer. Embora ainda mais rara, encefalite é descrita com uso abusivo, prolongado e excessivo. A toxicidade é mais grave no caso de ingestão. Menos de 50 casos graves de intoxicação por DEET foram descritos até hoje no mundo e nenhum deixou sequela. Vários estudos defendem inclusive o uso de DEET em concentrações até 30% em crianças pequenas.

Sobra a icaridina: menos estudos existem a respeito mas as principais reações são de pele.

Por fim, cabe reforçar que os produtos naturais não são necessariamente mais seguros. Também são relatadas irritações cutâneas e oculares com seu uso. Como já mencionado, o risco de alergia do óleo de eucalipto-limão é inclusive maior que o DEET e icaridina.

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