Recomendações sobre uso de telas e internet

criancas diversos

Em 2016 a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou o primeiro documento sobre Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital. Motivados pelo sucesso do documento, em fevereiro de 2020 a SBP aproveitou a data que comemora o Dia da Internet Segura (9 de fevereiro) para lançar um novo manual. Nele constam as últimas recomendações sobre uso de telas e internet na infância e adolescência.

O Manual de Orientação do Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital da SBP encontra-se disponível no site da sociedade, clicando aqui.

Alguns dados

De acordo com a pesquisa TIC KIDS ONLINE – Brasil realizada com 2964 famílias em 2018, 86% das crianças e adolescentes brasileiros entrevistados entre 9 e 17 anos estavam conectados a algum dispositivo eletrônico.

Em 93% dos casos o aparelho usado foi o celular, com compartilhamento de mensagens instantâneas (80% sexo feminino e 75% sexo masculino), uso de redes sociais (70% sexo feminino e 64% sexo masculino), fotos e vídeos (53% sexo feminino 44% sexo masculino), jogos online (39% sexo feminino e 71% sexo masculino) e off-line (56% sexo feminino e 65% sexo masculino). 83% usaram também para assistir a vídeos, filmes, programas ou séries na Internet. Da amostra, 82% tinham perfil em redes sociais.

25% das famílias entrevistadas afirmaram não ter conseguido controlar o tempo de uso, mesmo tentando passar menos tempo na Internet.

Desenvolvimento cerebral e mental

Os primeiros 1000 dias são importantes para o desenvolvimento cerebral e mental de qualquer criança. São diferentes estruturas e regiões cerebrais que amadurecem, como os circuitos sensoriais responsáveis pelo prazer/apego, tato/aconchego (holding/attachment), visão, sons, olfato.

Desta forma, o olhar e a presença da mãe/pai/família é vital como fonte natural dos estímulos, não podendo ser substituídos por telas e tecnologias.

É importante ainda considerar que o tempo de maturação do córtex pré-frontal, responsável pelas funções cognitivas e executivas, pelo controle dos impulsos, julgamento, resolução de problemas, atenção, inibição, memória, tomada de decisões é assíncrono em relação ao sistema límbico, que é responsável pelas emoções. Este descompasso entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico é intensificado no início da puberdade entre os 10-12 anos até os anos seguintes, em torno de 25-30 anos. 

Daí os comportamentos típicos dos adolescentes, não só de curiosidade e impulsividade, mas também quando arriscam seus próprios limites, inclusive durante a participação nos jogos de videogames, desafios virtuais, selfies em locais extremos ou nas redes sociais. As gratificações por pontos ou “likes” recebidas por estes comportamentos nos jogos ou redes perpassam pelos mecanismos de recompensa e da produção do neurotransmissor dopamina.

Muitos comportamentos se tornam impulsivos e automáticos aliviando episódios recentes de tédio, estresse ou depressão. Assim, algo que começou como uma distração na tela ou simples experimentação do objeto de consumo, como um jogo de videogame, estimulado pelas indústrias de entretenimento, passa a ser uma solução rápida para desaparecerem sentimentos perturbadores e emoções difíceis com as quais as crianças e adolescentes ainda não aprenderam a lidar.

A dependência dos jogos, inclusive com teor violento, mas que trazem desafios e recompensas, impede que enfrentem os problemas que contribuíram com este estresse tóxico e a liberação do cortisol, criando um ciclo vicioso de ansiedade e depressão.

Principais problemas médicos e alertas de saúde

Pesquisas médicas e evidências científicas vão se acumulando sobre o acesso às novas tecnologias. Elas descrevem não somente os benefícios da aceleração das informações e notícias em quase tempo real, mas também os prejuízos à saúde e efeitos de longo prazo quando ocorre o uso precoce, excessivo e prolongado durante a infância.

O prejuízo está além dos riscos de conteúdo, contato e condutas na segurança e privacidade. Estão associados também aos problemas que surgem na convivência familiar, no aprendizado e no desempenho escolar. 

De acordo com a SBP, o atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem é frequente em bebês que ficam passivamente expostos às telas, por períodos prolongados e problemas de sono são cada vez mais frequentes e associados aos transtornos mentais precoces em crianças e adolescentes.

A faixa de onda de luz azul presente na maioria das telas contribui para o bloqueio da melatonina e para a prevalência cada vez maior das dificuldades de dormir e manter uma boa qualidade de sono à noite na fase de sono profundo, com aumento de pesadelos e terrores noturnos. Ao acordar, aumento da sonolência diurna, problemas de memória e concentração durante o aprendizado com diminuição do rendimento escolar e a associação com sintomas dos transtornos do déficit de atenção e hiperatividade.

No manual da SBP estão listadas as principais alterações de comportamento e de saúde encontradas na literatura científica como problemas associados ao uso precoce e excessivo das tecnologias de informação.

Segue lista:

– Dependência Digital e Uso Problemático das Mídias Interativas

– Problemas de saúde mental: irritabilidade, ansiedade e depressão

– Transtornos do déficit de atenção e hiperatividade

– Transtornos do sono

– Transtornos de alimentação: sobrepeso/obesidade e anorexia/bulimia

– Sedentarismo e falta da prática de exercícios

– Bullying e cyberbullying

– Transtornos da imagem corporal e da auto-estima

– Riscos da sexualidade, nudez, sexting, sextorsão, abuso sexual, estupro virtual

– Comportamentos auto-lesivos, indução e riscos de suicídio

– Aumento da violência, abusos e fatalidades

– Problemas visuais, miopia e síndrome visual do computador

– Problemas auditivos e PAIR (Perda Auditiva Induzida pelo Ruído)

– Transtornos posturais e músculo-esqueléticos

– Uso de nicotina, vaping, bebidas alcoólicas, maconha, anabolizantes e outras drogas

Orientações para os pais

Seguem as orientações descritas no manual da SBP:

Evitar a exposição de crianças menores de 2 anos às telas, sem necessidade (nem passivamente!)

– Crianças com idades entre 2 e 5 anos: limitar o tempo de telas ao máximo de 1 hora/dia, sempre com supervisão

– Crianças com idades entre 6 e 10 anos: limitar o tempo de telas ao máximo de 2 horas/dia, sempre com supervisão

– Adolescentes com idades entre 11 e 18 anos, limitar o tempo de telas e jogos de videogames a 2-3 horas/dia, e nunca deixar “virar a noite” jogando

– Não permitir que as crianças e adolescentes fiquem isolados nos quartos com televisão, computador, tablet, celular, smartphones ou com uso de webcam; estimular o uso nos locais comuns da casa

– Para todas as idades: nada de telas durante as refeições e desconectar uma hora antes de dormir

Oferecer alternativas com atividades esportivas, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza, sempre com supervisão

– Nunca postar fotos de crianças e adolescentes em redes sociais públicas, por quaisquer motivos

– Criar regras saudáveis para o uso de equipamentos e aplicativos digitais, além das regras de segurança, senhas e filtros apropriados para toda família, incluindo momentos de desconexão e mais convivência familiar

– Encontros com desconhecidos online ou off-line devem ser evitados. Saber com quem e onde seu filho está, e o que está jogando ou sobre conteúdos de risco transmitidos (mensagens, vídeos ou webcam), é responsabilidade legal dos pais/cuidadores

– Estimular a mediação parental das famílias e a alfabetização digital nas escolas com regras éticas de convivência e respeito em todas as idades e situações culturais, para o uso seguro e saudável das tecnologias

– Conteúdos ou vídeos com teor de violência, abusos, exploração sexual, nudez, pornografia ou produções inadequadas e danosas ao desenvolvimento cerebral e mental de crianças e adolescentes, postados por cyber criminosos, devem ser denunciados e retirados pelas empresas de entretenimento ou publicidade responsáveis

– Identificar, avaliar e diagnosticar o uso inadequado precoce, excessivo, prolongado, problemático ou tóxico de crianças e adolescentes para tratamento e intervenções imediatas e prevenção da epidemia de transtornos físicos, mentais e comportamentais associados ao uso problemático e à dependência digital

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